{"id":9103,"date":"2007-01-27T09:03:06","date_gmt":"2007-01-27T08:03:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9103"},"modified":"2007-01-27T09:03:06","modified_gmt":"2007-01-27T08:03:06","slug":"hidden-name-reviewed-by-bodyspace","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9103","title":{"rendered":"\u00e2\u20ac\u0153Hidden Name\u00e2\u20ac\u009d reviewed by Bodyspace"},"content":{"rendered":"<p>Por motiva\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es supostamente hist\u00c3\u00b3ricas, n\u00c3\u00a3o surpreende que tenha sido o cinema norte-americano a instituir a Ocidente a no\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de que um fantasma tem de equivaler for\u00c3\u00a7osamente a uma presen\u00c3\u00a7a maligna &#8211; sempre pronta a atormentar criancinhas e a demover residentes de se mudarem para um casebre sustentado por pregos enferrujados. Em contraponto a essa simplifica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, o cinema oriundo do Jap\u00c3\u00a3o diferencia-se pela variedade de qualidades atribu\u00c3\u00addas aos seus fantasmas \u00e2\u20ac\u201c n\u00c3\u00a3o existe polariza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o que os impe\u00c3\u00a7a de serem benignos, entranhados num terreno ou apenas dedicados a uma vigil\u00c3\u00a2ncia passiva. A partir de uma localiza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Europeia neutra, os magos Stephan Mathieu e Janek Schaefer desenvolveram um m\u00c3\u00a9todo absolutamente plaus\u00c3\u00advel de enclausurar num disco o que se ressente \u00c3\u00a0 presen\u00c3\u00a7a de um fantasma criativo, que, neste caso, sobreviveu \u00c3\u00a0 presen\u00c3\u00a7a em vida de um compositor cl\u00c3\u00a1ssico numa quinta situada no sul de Inglaterra. Ocuparam-se os dois de resgatar ao p\u00c3\u00b3 de um s\u00c3\u00b3t\u00c3\u00a3o instrumentos como o clarinete, flauta, piano e trompete (quase sempre, indistingu\u00c3\u00adveis ao ouvido), somar os sons captados a partir desses e field recordings extra\u00c3\u00addos a toda a \u00c3\u00a1rea, e, em processo laboratorial de est\u00c3\u00badio, aproveitar para a substancia\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do fluxo o que de mais essencial representasse uma presen\u00c3\u00a7a carism\u00c3\u00a1tica e espiritualmente densa na dita propriedade.<\/p>\n<p>Dito assim, quase parece Hidden Name um disco esot\u00c3\u00a9rico para servir ao transcendentalismo moderno a que almejam todos os produtos tendenciosamente new age ou aqueles promovidos pela Maya em servi\u00c3\u00a7os publicit\u00c3\u00a1rios mais obscuros. Nada mais errado. Hidden Name aborda essencialmente o processo de priva\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o que pode eventualmente sofrer um lugar, que comporta as suas pr\u00c3\u00b3prias mudan\u00c3\u00a7as e historial. F\u00c3\u00a1-lo ponderadamente a partir do reaproveitamento de um espa\u00c3\u00a7o, que em tempos conheceu avidamente m\u00c3\u00basica cl\u00c3\u00a1ssica e que agora proporciona a ac\u00c3\u00bastica certa \u00c3\u00a0 suspens\u00c3\u00a3o demorada das caudas s\u00c3\u00b3nicas \u00e2\u20ac\u201c entretanto tornadas imperturbavelmente horizontais \u00e2\u20ac\u201c obtidas a partir da execu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o dos referidos instrumentos, que, pontualmente, v\u00c3\u00aaem o seu sonambulismo perturbado por sons recuperados \u00c3\u00a0 fauna animal que circunda a zona como abutres oriundos do al\u00c3\u00a9m e outras texturas mais granulares repescadas a empoeirados e crepitantes discos em vinil (Schaefer \u00c3\u00a9 um vanguardista inconformado com as limita\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es convencionais do formato). E tudo isto procede-se com base numa filtragem sens\u00c3\u00advel do que mais buc\u00c3\u00b3lico, intemporal e representativo do seu ambiente de origem pode libertar um acervo de recursos que, na pr\u00c3\u00a1tica, nunca correspondem musicalmente ao que se espera deles (n\u00c3\u00a3o h\u00c3\u00a1 como diagnosticar qualquer ortodoxia a \u00e2\u20ac\u0153Quartet for Flute, Piano and Cello\u00e2\u20ac\u009d). Em certas alturas, as manipula\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es de Mathieu e Schaefer projectam em tal \u00c3\u00b3rbita os sentidos, que passa o suporte f\u00c3\u00adsico do disco a parecer um fardo por contraste com o estado graciosamente gasoso do som em si.<\/p>\n<p>No enquadramento dos exerc\u00c3\u00adcios mais lineares, torna-se especificamente proibitivo invocar o adjectivo ambient, quando as formas isom\u00c3\u00a9tricas parecem verter \u00e2\u20ac\u201c em espiral &#8211; a sua constitui\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o para dentro de um po\u00c3\u00a7o sem fundo &#8211; a que n\u00c3\u00a3o se escutam ecos, repercuss\u00c3\u00b5es conclusivas do in\u00c3\u00adcio de um qualquer movimento. At\u00c3\u00a9 porque Hidden Name n\u00c3\u00a3o imp\u00c3\u00b5e balizas aos seus corpos alheados de press\u00c3\u00a3o grav\u00c3\u00adtica (&#8220;The Planets&#8221;, por exemplo, \u00c3\u00a9 gloriosamente infinito e imposs\u00c3\u00advel de ser fragmentado), limitando-se a oferecer uma oportunidade temporalmente cronometrada de se avaliar o que produz a resson\u00c3\u00a2ncia fantasmag\u00c3\u00b3rica que, em tempos, estigmatizou o espa\u00c3\u00a7o ao qual foi gravado um som no seu estado bruto para servir ao presente disco.<\/p>\n<p>Al\u00c3\u00a9m da infinidade de leituras que oferece a quem nele se atrever a aventurar, Hidden Name anula quaisquer retic\u00c3\u00aancias que pudessem pairar sobre as certezas de que este tem sido um ano abundantemente generoso (e beneficamente imprevis\u00c3\u00advel) por parte da portuense Cr\u00c3\u00b3nica (se exceptuarmos o meio-deslize \u00e2\u20ac\u201c formalmente justificado \u00e2\u20ac\u201c verificado no disco de Gintas K) e de que \u00c3\u00a9 priorit\u00c3\u00a1rio acompanhar o desafiante percurso que vem a percorrer, desde h\u00c3\u00a1 dez anos, o infal\u00c3\u00advel Janek Shaefer, que, entre tantos outros pontos altos, j\u00c3\u00a1 havia explorado o potencial claustrof\u00c3\u00b3bico do espa\u00c3\u00a7o de Serralves numa performance que tratou de documentar a Sirr em Black Immure: music from the Casa of Serralves. E quem j\u00c3\u00a1 andou por Serralves, sabe bem como \u00c3\u00a9 doloroso virar-lhe as costas num domingo solarengo. Nessas ocasi\u00c3\u00b5es, tal como nas que se verificam \u00c3\u00a0 escuta de Hidden Name, sobram os fantasmas e o comportamento que esses assumem. Hostil ou pacifico, conforme a percep\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de cada um.<\/p>\n<p>Miguel Ars\u00c3\u00a9nio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por motiva\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es supostamente hist\u00c3\u00b3ricas, n\u00c3\u00a3o surpreende que tenha sido o cinema norte-americano a instituir a Ocidente a no\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de que um fantasma tem de equivaler for\u00c3\u00a7osamente a uma presen\u00c3\u00a7a maligna &#8211; sempre pronta a atormentar criancinhas e a demover residentes de se mudarem para um casebre sustentado por pregos enferrujados. 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