{"id":9198,"date":"2006-07-27T03:59:09","date_gmt":"2006-07-27T02:59:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9198"},"modified":"2006-07-27T03:59:09","modified_gmt":"2006-07-27T02:59:09","slug":"product-06-reviewed-by-bodyspace","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9198","title":{"rendered":"\u00e2\u20ac\u0153Product 06\u00e2\u20ac\u009d reviewed by Bodyspace"},"content":{"rendered":"<p>Aplico \u00c3\u00a0 introdu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o um pragmatismo que se h\u00c3\u00a1-de dissipar com o t\u00c3\u00b3xico breu que lentamente cobre Product 06. Com o sexto cap\u00c3\u00adtulo da s\u00c3\u00a9rie Product, a Cr\u00c3\u00b3nica excede-se a si mesma e facilita condi\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es favor\u00c3\u00a1veis \u00c3\u00a0quele que muito provavelmente ser\u00c3\u00a1 o mais conseguido tomo dos at\u00c3\u00a9 aqui alinhados. Criado com vista \u00c3\u00a0 confronta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o e fus\u00c3\u00a3o de dois (ou mais) trabalhos sonoros acompanhados pelo artwork de um convidado externo, acaba o formato Product por proporcionar uma gradual fixa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o unit\u00c3\u00a1ria a componentes que \u00c3\u00a0 partida seriam sequenciadas \u00e2\u20ac\u201c mesmo assim, l\u00c3\u00a1 se encontra o \u00e2\u20ac\u0153product silence\u00e2\u20ac\u009d para quem se decidir por leituras separadas dos tr\u00c3\u00aas desempenhos. Independentemente da abordagem, o sexto Product \u00c3\u00a9 em todas as frentes revelador e dado a entranhar-se sem pedir licen\u00c3\u00a7a.<\/p>\n<p>Suspeita-se que estimule \u00c3\u00a0 cria\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de alternativas a previsibilidade de uma era cinematogr\u00c3\u00a1fica que tarda em ultrapassar o uso abusivo da armadilha dram\u00c3\u00a1tica empregue pelas cordas lancinantes a perfurar textura perturbante. Numa altura em que conhecer gente \u00c3\u00a9 f\u00c3\u00a1cil (e j\u00c3\u00a1 os Radiohead insistiam nessa ideia), a solid\u00c3\u00a3o sufocante \u00c3\u00a9 o novo horror e a aus\u00c3\u00aancia a nega\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da satisfa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o consumista. Sob a forma de colosso cabal\u00c3\u00adstico, Product 06 decide antagonizar-se ao conformismo institucionalizado pelas bandas-sonoras mencionadas &#8211; potenciando as capacidades de sinistralidade densa em que o sil\u00c3\u00aancio cai como azeite sobre vinagre. Apurando a malevol\u00c3\u00aancia de drones doentiamente magn\u00c3\u00a9ticos, desertificando-os de carisma para que cada audi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o constitua risco de naufr\u00c3\u00a1gio. \u00c3\u2030 dif\u00c3\u00adcil sair de semblante inalterado e ileso ao vortex que suga at\u00c3\u00a9 \u00c3\u00a0s catacumbas arquitectadas pelas tr\u00c3\u00aas partes envolvidas.<\/p>\n<p>Admiro a frontalidade da prescri\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o que tr\u00c3\u00a1s Zodiac, quarto disco dos m\u00c3\u00adticos e obscuros Legion a que o n\u00c3\u00a3o menos m\u00c3\u00adtico Andrew Lagowski serviu de figura de proa (mesmo que a partir da penumbra que lhe caracteriza a longa carreira). O disco \u00e2\u20ac\u201c nomeado a partir de um assassino que ceifou vidas em s\u00c3\u00a9rie na S\u00c3\u00a3o Francisco de 60 e 70 \u00e2\u20ac\u201c digna-se a avisar os incautos de que N\u00c3\u00a3o \u00c3\u00a9 aconselh\u00c3\u00a1vel a suicidas, fob\u00c3\u00b3fobos, dependentes de drogas ou medica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. No verso dessa mensagem, e num tom mais sat\u00c3\u00adrico, os Legion recomendam a que pessoas de mentalidade fr\u00c3\u00a1gil n\u00c3\u00a3o arrisquem escutar Zodiac em festas. Tenho para mim que qualquer festa viesse a ganhar o aspecto de ritual macabro quando submetida ao som de Zodiac, ou de Product 06, certamente. Zodiac vedava-se atrav\u00c3\u00a9s dos avisos do seu potencial p\u00c3\u00bablico alvo. Product 06 \u00c3\u00a9 terap\u00c3\u00aautico: ap\u00c3\u00b3s o tempo que se dispensa ao conv\u00c3\u00advio com a sua premente obscuridade, toda a realidade presente parece mais solarenga.<\/p>\n<p>A primeiro assombra\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o surge pela m\u00c3\u00a3o medonha de Pawel Grabowski, promissora figura do panorama experimental polaco, que, centrado na manipula\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de field recordings, frequ\u00c3\u00aancias de radio, sine waves, vozes e ru\u00c3\u00addos captados, tece uma convulsa teia de espessas camadas que, ao ritmo contemplativo de uma l\u00c3\u00a2mina sob pele virgem, v\u00c3\u00a3o sendo aplicadas \u00c3\u00a0 mumifica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o das circunst\u00c3\u00a2ncias que ter\u00c3\u00a3o levado a um estranho desaparecimento. Denota-se a reincid\u00c3\u00aancia sobre a morte enquanto tema (o download do quase siam\u00c3\u00aas Notes from the House of Dead encontra-se dispon\u00c3\u00advel aqui) e algumas reminisc\u00c3\u00aancias da grandiosa banda-sonora que Krysztof Komeda \u00e2\u20ac\u201c tamb\u00c3\u00a9m ele polaco \u00e2\u20ac\u201c gravou para \u00e2\u20ac\u0153Fearless Vampire Killers\u00e2\u20ac\u009d de Roman Polanski.<\/p>\n<p>A ponte entre Pawel Grabowski e The Beautiful Schizophonic jaz nos lan\u00c3\u00a7amentos de ambos encarregados \u00c3\u00a0 tutela da belga Mystery Sea, que, tal como o nome indicia, se d\u00c3\u00a1 ao arquivismo de uma oceanografia que tem o drone como objecto de estudo. Love Songs for a Psychoacoustic Girl &#8211; cancioneiro de poesia her\u00c3\u00a9tica a cargo de Jorge Mantas &#8211; surge ap\u00c3\u00b3s um disco de moldes semelhantes a este &#8211; que o uniu a Bio e Cria Cuervos na Thisco &#8211; e de ter assumido a exclusividade do d\u00c3\u00a9cimo Cr\u00c3\u00b3nicaster (que se recomenda como demonstra\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o estilisticamente mais diversa do p\u00c3\u00b3s-romantismo do projecto The Beautiful Schizophonic e que pode ser sacado no site da Cr\u00c3\u00b3nica). O tempo aqui pertence aos drones p\u00c3\u00b3s-rom\u00c3\u00a2nticos \u00e2\u20ac\u201c \u00c3\u00a0s vezes, at\u00c3\u00a9 p\u00c3\u00b3s-drones -, \u00c3\u00a0s paisagens sonoras talhadas para acompanhar o lusco-fusco de rela\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es humanas que sucumbem \u00c3\u00a0 dist\u00c3\u00a2ncia imposta pela urbanidade. Procede-se subjectivamente \u00c3\u00a0 actualiza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o cibern\u00c3\u00a9tica do g\u00c3\u00b3tico de Edgar Allan Poe e, em simult\u00c3\u00a2neo com esse processo, \u00c3\u00a0 desatura\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de sons indistintos, agora cadav\u00c3\u00a9ricos. Fontes prov\u00c3\u00a1veis de inspira\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o: The Place where the Black Stars hang, epit\u00c3\u00a1fio da claridade assinado por Lustmord, ou Music for Bondage Performance do incontorn\u00c3\u00a1vel Merzbow. \u00c3\u20ac margem de compara\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es, cumpre em pleno a participa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o triunfalmente f\u00c3\u00banebre de Jorge Mantas no sexto Producto e \u00c3\u00a9 esse motivo mais que suficiente para manter The Beautiful Schizophonic sob suspei\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o auditiva.<\/p>\n<p>O crep\u00c3\u00basculo absoluto ficou a cargo da colabora\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o entre o desafiante manipulador de gira-discos, James Eck Rippie, e Paulo Raposo, que persiste em acumular parcerias que estimulem a sua digit\u00c3\u00a1lia. \u00e2\u20ac\u0153Natureza Morta\u00e2\u20ac\u009d encerra Product 06 em registo menos automatizado, mas, ao mesmo tempo, mais desconexo. Predominantemente agreste e \u00c3\u00a1spero, estabelece, a partir de certa altura, o vai e vem de um loop outonal que persiste a toda a uma s\u00c3\u00a9rie de texturas que sobre a terra apodrecem na esperan\u00c3\u00a7a de que virem a cumprir com o evoluir da natureza (t\u00c3\u00a3o c\u00c3\u00adclica quanto o exerc\u00c3\u00adcio a que d\u00c3\u00a1 nome). De in\u00c3\u00adcio, parece pr\u00c3\u00b3xima da manipula\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o fragment\u00c3\u00a1ria de sons reconhecivelmente medi\u00c3\u00a1ticos que caracterizava o conceito Can I have 2 Minutes of Your Time? (a edi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o comemorativa de 2 anos de Cr\u00c3\u00b3nica que por aqui j\u00c3\u00a1 foi abordada), mas acaba por desembocar numa encruzilhada onde estilha\u00c3\u00a7os de cl\u00c3\u00a1ssico e \u00c3\u00a9tnico convergem sem no\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da dist\u00c3\u00a2ncia que os separa.<\/p>\n<p>Jaz na l\u00c3\u00a1pide de Product 06 a putrefacta certeza que os Obituary j\u00c3\u00a1 anunciavam h\u00c3\u00a1 anos: Slowly We Rot. Volta a Cr\u00c3\u00b3nica a cumprir com o seu dever. E a morte fica-lhe t\u00c3\u00a3o bem.<\/p>\n<p>Miguel Ars\u00c3\u00a9nio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aplico \u00c3\u00a0 introdu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o um pragmatismo que se h\u00c3\u00a1-de dissipar com o t\u00c3\u00b3xico breu que lentamente cobre Product 06. 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