{"id":9460,"date":"2004-06-29T02:26:32","date_gmt":"2004-06-29T01:26:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9460"},"modified":"2004-06-29T02:26:32","modified_gmt":"2004-06-29T01:26:32","slug":"product-01-reviewed-by-bodyspace","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.cronicaelectronica.org\/?p=9460","title":{"rendered":"\u00e2\u20ac\u0153Product 01\u00e2\u20ac\u009d reviewed by Bodyspace"},"content":{"rendered":"<p>Registam-se novos sinais de vida para os lados da etiqueta Cr\u00c3\u00b3nica. Desta vez, responsabilize-se o projecto Product, uma s\u00c3\u00a9rie de split CDs que, com a m\u00c3\u00basica de Sumugan Sivanesan e de Dur\u00c3\u00a1n V\u00c3\u00a1zquez, se inaugura. Confronta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o e fus\u00c3\u00a3o \u00e2\u20ac\u201c diz-nos a press release que serve de promo\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o a este objecto \u00e2\u20ac\u201c encontram-se no cerne da ambi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o destas edi\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es. A concep\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do produto n\u00c3\u00a3o se encerra na m\u00c3\u00basica. Passa ainda pelos dois v\u00c3\u00addeos de Sumugan Sivanesan e pelas imagens que ilustram a capa do \u00c3\u00a1lbum, neste caso ao cuidado da artista su\u00c3\u00ad\u00c3\u00a7a Maia Gusberti.<\/p>\n<p>Spare Your Speakers, a primeira parte do produto assinada e registada no ano 2002 por Sumugan Sivanesan \u00e2\u20ac\u201c um australiano que, durante os anos noventa, integrou v\u00c3\u00a1rias bandas rock e que se envolveu na m\u00c3\u00basica experimental aquando do seu ingresso no mundo dos media audiovisuais \u00e2\u20ac\u201c inunda-se, ao longo de oito faixas, numa explora\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de polifonias comprimidas e na manipula\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de sucessivos feedbacks. O conceito de espa\u00c3\u00a7o parece estar no centro deste trabalho, seja ele representado sob a forma de &#8220;volume, sil\u00c3\u00aancio, a dist\u00c3\u00a2ncia entre o campo est\u00c3\u00a9reo ou a sobreposi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de elementos&#8221;.<\/p>\n<p>Dentro da experi\u00c3\u00aancia pouco comum que \u00c3\u00a9 ouvir este registo, \u00c3\u00a9 dada a possibilidade ao ouvinte de preencher de sentido o espa\u00c3\u00a7o que ouve, mesmo que, muitas vezes, se possa vir a sentir perdido. Umas vezes parece ouvir simplesmente o vento, outras uma m\u00c3\u00a1quina ensurdecedora cujo ru\u00c3\u00addo que se prolonga num pesadelo intermin\u00c3\u00a1vel. Num momento, desce uns metros abaixo do solo para escutar a chegada de um metropolitano, noutro depreende vozes que proclamam palavras impercept\u00c3\u00adveis. \u00c3\u20acs vezes sente agulhas a picaram-lhe os ouvidos, outras baixos a repetirem a mesma nota at\u00c3\u00a9 \u00c3\u00a0 infinidade. Nenhum ru\u00c3\u00addo aqui lhe \u00c3\u00a9 dado de forma imediatamente reconhec\u00c3\u00advel, apenas lhe \u00c3\u00a9 oferecido a imaginar. Deste modo, Spare Your Speakers, por n\u00c3\u00a3o ser necessariamente algo definitivamente bonito ou feio nem extremamente interessante ou enfadonho, acaba por n\u00c3\u00a3o deixar marcas.<\/p>\n<p>Por sua vez, Pigua, Megapigua, o &#8220;lado b&#8221; do split preparado por Dur\u00c3\u00a1n V\u00c3\u00a1zquez \u00e2\u20ac\u201c um auto-didacta que encetou pelo mundo da experimenta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o nos \u00c3\u00baltimos anos do s\u00c3\u00a9culo passado \u00e2\u20ac\u201c apresenta ao ouvinte uma faceta mais din\u00c3\u00a2mica daquilo que a que se pode chamar m\u00c3\u00basica experimental. Aproxima-se do conceito de techno ambiental, sem nunca se prender a ele, porque \u00e2\u20ac\u0153conven\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o\u00e2\u20ac\u009d parece ser voc\u00c3\u00a1bulo que n\u00c3\u00a3o consta do dicion\u00c3\u00a1rio pessoal de V\u00c3\u00a1zquez. Pigua, Meguapigua oferece-nos paisagens, muitas vezes cinzentas como as do booklet do CD, sacadas a um sonho estranho e, por vezes, horripilante que j\u00c3\u00a1 tivemos, instalando no ouvinte uma sensa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o n\u00c3\u00a3o muito distinta da experienciada, noutras circunst\u00c3\u00a2ncias, aquando da audi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da m\u00c3\u00basica criada por Alan Splet e David Lynch para a banda sonora de Eraserhead. Os efeitos de imita\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o e de insol\u00c3\u00aancia do ru\u00c3\u00addo s\u00c3\u00a3o uma constante mas s\u00c3\u00a3o sempre abordados de uma forma perspicaz e apaixonante.<\/p>\n<p>\u00e2\u20ac\u0153Monsanto, East St. Louis, Illionis\u00e2\u20ac\u009d, um velho tema techno, \u00c3\u00a9 aqui transfigurado numa &#8220;esp\u00c3\u00a9cie de sil\u00c3\u00aancio aud\u00c3\u00advel e r\u00c3\u00adtmico como a morte que consumimos diariamente&#8221; (diz o booklet, o escriba concorda). Por seu lado, \u00e2\u20ac\u0153Rochas no Ceo\u00e2\u20ac\u009d \u00e2\u20ac\u201c um tema constru\u00c3\u00addo a partir de um loop de guitarras distorcidas, grava\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es de ru\u00c3\u00addos como o do vento, e de uma linha de baixo \u00e2\u20ac\u201c evoca as rochas que no tempo da guerra eram propagadas no c\u00c3\u00a9u, representadas, por exemplo, pelo pintor surrealista Ren\u00c3\u00a9 Magritte no seu quadro La Fleche de Zenon. H\u00c3\u00a1 a sensa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de an\u00c3\u00bancio de tempestade e, simultaneamente, descortina-se a perman\u00c3\u00aancia de um som que n\u00c3\u00a3o foge, mas que paira. No tema que fecha o disco, \u00e2\u20ac\u0153Death Simplicity\u00e2\u20ac\u009d, h\u00c3\u00a1 um crescendo de vozes distorcidas e incompreens\u00c3\u00adveis que v\u00c3\u00a3o instalando um caos inc\u00c3\u00b3modo, sob um fundo de electr\u00c3\u00b3nica avariada. Os \u00c3\u00baltimos segundos ficam por conta do vento que se cala, de rompante, aos 55 minutos e 58 segundos que se seguem ao in\u00c3\u00adcio desta viagem pouco convencional.<\/p>\n<p>A servir de ponte entre a obra de Sivanesan e a de V\u00c3\u00a1zquez ouve-se um sil\u00c3\u00aancio de trinta e dois segundos. N\u00c3\u00a3o ser\u00c3\u00a3o universos completamente alheios os destes dois artistas, mas h\u00c3\u00a1 algo que se ganha largamente aquando da audi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da segunda parte deste split. O sil\u00c3\u00aancio, enquanto passagem, parece querer anunciar um universo mais forte e envolvente. Pigua, Megapigua \u00c3\u00a9 uma viagem que fica entranhada na mem\u00c3\u00b3ria. Permanece viva dentro do ouvinte.<\/p>\n<p>Tiago Carvalho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Registam-se novos sinais de vida para os lados da etiqueta Cr\u00c3\u00b3nica. Desta vez, responsabilize-se o projecto Product, uma s\u00c3\u00a9rie de split CDs que, com a m\u00c3\u00basica de Sumugan Sivanesan e de Dur\u00c3\u00a1n V\u00c3\u00a1zquez, se inaugura. 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