Síria’s “Cuspo” reviewed by Bodyspace


Para ouvir em posição fetal.

A humanidade tem uma relação complicada com a sua saliva. Não temos pudor nenhum em trocá-la num beijo, quando em momentos mais íntimos, ou em ceder à tentação mamífera de lamber as nossas feridas, mas encaramos como um bruto sinal de desrespeito – senão mesmo de ódio – o facto de alguém nos cuspir em cima, a não ser que sejamos punks, principalmente os da estirpe “palerma”, que vêem nisso um sinal de respeito. Já para não falar da expressão colada a cuspo, quando o assunto é algo mal enjorcado…

Essa relação amor-ódio pela saliva parece estar presente em “Cuspo”, o tema-título que encerra o primeiro álbum de Diana Combo sob o nome Síria. Aqui, um único verso é entoado de modo repetitivo e carregado de eco, sobre uma sonoridade electrónica quase muda e tenebrosa: Se eu soubesse que ias cuspir-me na cara, eu teria aberto a boca. Há uma atitude desafiante por parte de quem canta, mas também de aceitação da saliva em si; abre-se a boca para que a saliva perca essa conotação de nojo; cospe-se figuradamente na cara de quem literalmente nos cospe buscando uma reacção. Uma espécie de diz-me lá essa merda à minha frente, filho de uma grande puta.

Um desafio que também se encontra em “Gloria”, versão do tema de Van Morrison como cantado por Patti Smith, que aqui é desconstruído até à raiz: fica apenas a voz e um ritmo ténue, spoken word sobre ruídos rangentes. Até lá chegarmos há o susto, a solidão escura – porque a ausência de luz é assustadora há milénios – da tríade “A Lua Da Eva” / “Canção Da Mulher Cão” / “Raiva”, onde são as palavras e, sobretudo, os efeitos dados à voz que conferem essa aura que percepcionamos como maligna, mesmo que possa não ter sido essa a intenção da artista. Um pouco à semelhança de “It’s A Fine Day”, poema de Edward Barton cantado por Jane Lancaster, antes de ser transformado num hino eurodance.

Muito resumidamente, Cuspo é um dos álbuns mais fascinantes do ano e a sua audição não é recomendada à noite e de luzes desligadas sob pena de o cérebro fritar. Este escriba é fã do Buyer’s Market do Peter Sotos e ia-se borrando todo. Paulo Cecílio

via Bodyspace

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