Há discos que podem até valer por si só, ou seja, apenas como matéria audÃvel com os consequentes remates opinativos; mas há muitos outros que tomam dimensões diferentes se houver uma pré-contextualização. O que seria dos “4.33” aparentemente silenciosos de Cage se não soubéssemos antecipadamente que o silêncio não existe no sentido de total ausência de som? O que seria do minimal e repetitivo I Am Sitting in a Room de Alvin Lucier se não tivesse por trás de si o conceito de que, as diferentes estruturas fÃsicas ou a ausência delas, providenciariam reais nuances nos padrões sonoros? O conceito parece querer sobrepor-se à forma.
Estes dois trabalhos editados pela portuguesa Crónica afiguram-se como dois exemplos que ganham no ouvido se conhecermos melhor as metas que pretendem atingir antes da sua audição.
O outro disco aqui em causa abre um novo capÃtulo nas séries de aparência asséptica da editora portuense: a série Product. O objectivo transformado em objecto, trata de confrontar ou congregar dois projectos no mesmo disco. Um deles provém da Austrália e tem o enviesado nome de Sumugan Sivanesan; o outro é Durán Vásquez, um dos muitos auto-didactas para quem a revolução laptop e adjacentes softwares de criação e tratamento sonoro, veio veicular ideias outrora presas a uma prévia formação musical, o infalÃvel método tentativa/erro dos empÃricos.
Sivanesan centra os seus temas num patamar cientÃfico, onde esmiúça ao telescópio amostras sonoras contaminadas por toda a espécie de vÃrus, quer na sua variante mais comichosa ou quando assume formas mais concretas; temos então pequenos pedaços de electrónica ambiental onde o som é corrosivo e as más frequências se olham no umbigo durante alguns minutos, ou então, música concreta que tanto pode ser o ruÃdo mouco da urbe e seus transeuntes como o som das máquinas que os servem. Spare Your Speakers, porque não?
Durán Vasquez alinha pela mesma matriz, mas com resultados mais estimulantes. Com o mesmo sentido realista e o mesmo som denso, mas com os microfones mais abertos, Vasquez capta também a carga melódica que deambula pelos lugares e que tinha ficado arredada nas peças do seu companheiro de split. Em ambos, o ritmo quase não marca presença; ou se encontra embaciado pelas outras camadas sonoras ou é parido a ferros como em “War Simplicity”.
O disco é mais marcado pela fusão do que pela confrontação, tanto um como o outro procuram através da experimentação sonora de cariz essencialmente ambiental, transformar, criar ou evocar eventos e realidades que à partida não se dispõem de imediato perante a nossa “visão” auditiva.
Pedro Torres