“Two Novels: Gaze / In the Cochlea” reviewed by Bodyspace

É agachado e de braços estendidos que procedo a esta resenha. O corpo aponta para o Porto, pois é lá que está sediada a Crónica – exemplar impulsionadora de electrónica de vanguarda que, a cada lançamento, nunca garante menos que um experiência única armazenada em invólucro de refinado requinte gráfico. Geralmente, grande parte do que aqui se estranha progressivamente se entranha. Entenda-se cada nova adição ao catálogo da Crónica como um esclarecedor fascículo pertencente à grandiosa colecção “Tudo o que preciso de conhecer para melhor assimilar o que aí vem”. Tal como qualquer junção aleatória de “blips” e “cracks” não constitui Avant-Garde de qualidade, também muita da nova electrónica não chega a ser aconselhável. Pois fiquem descansados, meus caros leitores, porque o produto da Crónica merece o título de nova tendência por excelência. Ao tradicional “a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha” contraponha-se um provérbio de recurso: “da electrónica que é nossa ninguém faz troça”. Bem sei que alguns dos contribuidores são estrangeiros mas – fala o bairrismo – o quartel é lusitano!

O.Blaat (Keiko Uenishi de baptismo) faz do seu minimalismo de redoma um tubo de ensaio cosmopolita ao qual todos os intervenientes podem juntar a sua fórmula. A equipa de especialistas é de primeira linha: entre muitos outros, Kaffe Matthews, dj Olive e o violinista Eyvind Kang (que ainda este ano tivemos a oportunidade de ver ao vivo na Aula Magna pela mão dos Fantômas). Inspirada pelos ruídos em estado bruto absorvidos a um qualquer apartamento de Brooklyn(onde mora actualmente), o.blaat tece o seu manto de herméticas variantes do nada. Two novels, dividido entre Gaze e In the colchea, é uma objecto conceptual dois-em-um. É, além disso, um imponente tratado de “storytelling” abstracto e corcunda, no sentido de ser imperfeito e simultaneamente dócil.

Gaze lança no ar oito pétalas potencialmente acusmáticas que acabarão por adormecer no esplendor da relva. “One morning” é imparavelmente epiléptico. Galopam a trote as texturas ruidosas que convergem em uníssono. Baralham-se os sentidos enquanto o pólen se espalha. “Egg salad sandwich” é, tal como nome indica, um denso equívoco de múltiplos ruídos misturados numa salada confeccionada ao ritmo alucinante da montagem de “Requiem for a dream – A vida não é um sonho”. No seu enquadramento esférico, “Gone fishing” serve de genérico à “Quinta das electricidades”, onde o. blaat e DJ Olive expõem o resultado da sinergia entre frequências intermitentes e aquilo que parece ser o grunhido de um porco.

Por meio de meticuloso arbítrio da estática e suiça cronometragem do tempo a ceder a textura y ou x, o.blaat ensaia as suas micro-narrativas na senda de uma realidade oblíqua onde o mascar do caruncho prepondera ao rosnar do leão. Todos estes são ínfimos fenómenos da zoologia e botânica que, observados à lupa, servem de fotossíntese a esta orquídea digital.

Destinado a ser auscultado em vez de escutado a ouvido nu, In the colchea desafia a convenção de um John(Lennon)(imortalizada nas palavras “Say what you mean, make it rhyme, and put a beat to it”) em favor da de outro(Cale), que nega a existência do silêncio. Sucedem-se logicamente nove exercícios onde a cacofonia (oiça-se “Eight-o) e os extremos são agentes de um objecto que procura estimular o aparelho auditivo (podendo até feri-lo se escutados acima de determinado volume), e consegue-o plenamente.

Escutar Two novels:Gaze/In the colchea é como levar a cabo um jogo de Mikado cerebral que opõe os nossos sentidos à imaginação de o.blaat. A cada pauzinho cuidadosamente retirado, mais uma porção de um imaginário que não se dispõe a diagnósticos concretos. Desabrochou uma linda flor no jardim da nova electrónica.

Miguel Arsénio

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