“Deriva” reviewed by Rimas e Batidas

Quem porventura possa ler regularmente esta coluna (sim, vocês os três…) há-de reconhecer que a palavra “deriva” é usada com alguma frequência como descritivo para muita música aqui focada. A ideia de desvio imprevisto e sem destino calculado que essa palavra carrega parece, de facto, apropriada para descrever muita música mais exploratória e experimental, música que nasce de um impulso criativo, de uma dúvida, de uma qualquer ideia, mas que quase sempre desconhece ou nem sequer se importa com o resultado final, com um objectivo concreto. O importante é a busca, não o destino, o importante é a colocação da problemática, não necessariamente a resposta obtida.

A presente compilação resulta, precisamente, de um desafio lançado a uma série de criadores – Simone Castellan, Stefano Giampietro, Natura Wiwa (Pietro La Rocca e Carlos Zíngaro), Petri Kuljuntausta, Chelidon Frame, Rinaldo Marti, Emanuele Costantini e Dimitrios Savva – por VacuaMœnia (Fabio R. Lattuca and Pietro Bonanno), entidade focada em “revolucionar o significado estético de espaços sónicos abandonados” e apostada na “realização de eventos relacionados com ecologia acústica”, explica-se na página Bandcamp respectiva. E o desafio, revela-se também, é o de investigarem o tema da “deriva”, em termos sónicos, conceptuais, filosóficos e estéticos. “Que práticas, formas, estratégias se podem adoptar?”

As respostas são dadas pelos artistas seleccionados – que são, sobretudo, italianos, mas também com (e é fácil adivinhar quem) representação portuguesa, finlandesa e cipriota, e que pertencem a diferentes gerações (o português Carlos Zíngaro, nascido em 1948, é o mais velho ao passo que Stefano Giampietro, de apenas 27 anos, é o mais novo) – que apresentam aqui uma série de oito intensas peças que procuram traduzir essa tão difusa quanto real ideia de deriva.

Com uma consistência estética assinalável, as peças altamente abstractas aqui apresentadas vivem de drones, matéria harmónica em suspensão, ruídos concretos, manipulação electrónica, processamento acústico minucioso de gravações de campo, trabalho laboratorial em torno das propriedades do próprio som, confundido os planos do natural e do artificial, do real e do hiper real, numa hipnótica viagem que convida à imersão e que leva, obviamente, à deriva do pensamento: muito curioso o resultado do exercício de audição concentrada, em ambiente desprovido de luz, destas oito peças que efectivamente têm o poder de nos transportarem até destino perfeitamente desconhecido, pois claro. Rui Miguel Abreu

via Rimas e Batidas

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