“Product 06” reviewed by Bodyspace

Aplico à introdução um pragmatismo que se há-de dissipar com o tóxico breu que lentamente cobre Product 06. Com o sexto capítulo da série Product, a Crónica excede-se a si mesma e facilita condições favoráveis àquele que muito provavelmente será o mais conseguido tomo dos até aqui alinhados. Criado com vista à confrontação e fusão de dois (ou mais) trabalhos sonoros acompanhados pelo artwork de um convidado externo, acaba o formato Product por proporcionar uma gradual fixação unitária a componentes que à partida seriam sequenciadas – mesmo assim, lá se encontra o “product silence” para quem se decidir por leituras separadas dos três desempenhos. Independentemente da abordagem, o sexto Product é em todas as frentes revelador e dado a entranhar-se sem pedir licença.

Suspeita-se que estimule à criação de alternativas a previsibilidade de uma era cinematográfica que tarda em ultrapassar o uso abusivo da armadilha dramática empregue pelas cordas lancinantes a perfurar textura perturbante. Numa altura em que conhecer gente é fácil (e já os Radiohead insistiam nessa ideia), a solidão sufocante é o novo horror e a ausência a negação da satisfação consumista. Sob a forma de colosso cabalístico, Product 06 decide antagonizar-se ao conformismo institucionalizado pelas bandas-sonoras mencionadas – potenciando as capacidades de sinistralidade densa em que o silêncio cai como azeite sobre vinagre. Apurando a malevolência de drones doentiamente magnéticos, desertificando-os de carisma para que cada audição constitua risco de naufrágio. É difícil sair de semblante inalterado e ileso ao vortex que suga até às catacumbas arquitectadas pelas três partes envolvidas.

Admiro a frontalidade da prescrição que trás Zodiac, quarto disco dos míticos e obscuros Legion a que o não menos mítico Andrew Lagowski serviu de figura de proa (mesmo que a partir da penumbra que lhe caracteriza a longa carreira). O disco – nomeado a partir de um assassino que ceifou vidas em série na São Francisco de 60 e 70 – digna-se a avisar os incautos de que Não é aconselhável a suicidas, fobófobos, dependentes de drogas ou medicação. No verso dessa mensagem, e num tom mais satírico, os Legion recomendam a que pessoas de mentalidade frágil não arrisquem escutar Zodiac em festas. Tenho para mim que qualquer festa viesse a ganhar o aspecto de ritual macabro quando submetida ao som de Zodiac, ou de Product 06, certamente. Zodiac vedava-se através dos avisos do seu potencial público alvo. Product 06 é terapêutico: após o tempo que se dispensa ao convívio com a sua premente obscuridade, toda a realidade presente parece mais solarenga.

A primeiro assombração surge pela mão medonha de Pawel Grabowski, promissora figura do panorama experimental polaco, que, centrado na manipulação de field recordings, frequências de radio, sine waves, vozes e ruídos captados, tece uma convulsa teia de espessas camadas que, ao ritmo contemplativo de uma lâmina sob pele virgem, vão sendo aplicadas à mumificação das circunstâncias que terão levado a um estranho desaparecimento. Denota-se a reincidência sobre a morte enquanto tema (o download do quase siamês Notes from the House of Dead encontra-se disponível aqui) e algumas reminiscências da grandiosa banda-sonora que Krysztof Komeda – também ele polaco – gravou para “Fearless Vampire Killers” de Roman Polanski.

A ponte entre Pawel Grabowski e The Beautiful Schizophonic jaz nos lançamentos de ambos encarregados à tutela da belga Mystery Sea, que, tal como o nome indicia, se dá ao arquivismo de uma oceanografia que tem o drone como objecto de estudo. Love Songs for a Psychoacoustic Girl – cancioneiro de poesia herética a cargo de Jorge Mantas – surge após um disco de moldes semelhantes a este – que o uniu a Bio e Cria Cuervos na Thisco – e de ter assumido a exclusividade do décimo Crónicaster (que se recomenda como demonstração estilisticamente mais diversa do pós-romantismo do projecto The Beautiful Schizophonic e que pode ser sacado no site da Crónica). O tempo aqui pertence aos drones pós-românticos – às vezes, até pós-drones -, às paisagens sonoras talhadas para acompanhar o lusco-fusco de relações humanas que sucumbem à distância imposta pela urbanidade. Procede-se subjectivamente à actualização cibernética do gótico de Edgar Allan Poe e, em simultâneo com esse processo, à desaturação de sons indistintos, agora cadavéricos. Fontes prováveis de inspiração: The Place where the Black Stars hang, epitáfio da claridade assinado por Lustmord, ou Music for Bondage Performance do incontornável Merzbow. À margem de comparações, cumpre em pleno a participação triunfalmente fúnebre de Jorge Mantas no sexto Producto e é esse motivo mais que suficiente para manter The Beautiful Schizophonic sob suspeição auditiva.

O crepúsculo absoluto ficou a cargo da colaboração entre o desafiante manipulador de gira-discos, James Eck Rippie, e Paulo Raposo, que persiste em acumular parcerias que estimulem a sua digitália. “Natureza Morta” encerra Product 06 em registo menos automatizado, mas, ao mesmo tempo, mais desconexo. Predominantemente agreste e áspero, estabelece, a partir de certa altura, o vai e vem de um loop outonal que persiste a toda a uma série de texturas que sobre a terra apodrecem na esperança de que virem a cumprir com o evoluir da natureza (tão cíclica quanto o exercício a que dá nome). De início, parece próxima da manipulação fragmentária de sons reconhecivelmente mediáticos que caracterizava o conceito Can I have 2 Minutes of Your Time? (a edição comemorativa de 2 anos de Crónica que por aqui já foi abordada), mas acaba por desembocar numa encruzilhada onde estilhaços de clássico e étnico convergem sem noção da distância que os separa.

Jaz na lápide de Product 06 a putrefacta certeza que os Obituary já anunciavam há anos: Slowly We Rot. Volta a Crónica a cumprir com o seu dever. E a morte fica-lhe tão bem.

Miguel Arsénio

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